Por: Airton Noé A. da Silveira – Eng. ambiental
18/11/25 – Atualizado em: (21/11/25)
A 30ª Conferência das Partes da ONU sobre Mudança do Clima (COP30) é um evento de extrema importância, e que marca o retorno da conferência ao Brasil após a Rio-92 e a COP Rio+20. A COP30 acontece de 10 a 21/11/25.
A escolha de Belém, levou em conta que é uma cidade portuária e também é a porta de entrada para a região do Baixo Amazonas do Brasil, chamando assim a atenção e destacando a Amazônia, seu bioma, e seus povos, visando também o encaixe para o centro do debate climático global. Nesta COP há um grande contraste entre o enorme investimento para a realização do evento, e as condições reais em que vivem as comunidades desta região.
“Em muitos aspectos, Belém representa a região Norte urbana: uma região rica em recursos, mas carente de oportunidades. Dependente da mineração, da agricultura e da energia, sua economia oferece poucos empregos formais, deixando mais da metade da população do Pará na informalidade e muitos jovens sem perspectivas. Belém tem a maior proporção de favelas entre as capitais brasileiras, com cerca de 57% dos moradores vivendo em áreas precárias, segundo o IBGE. Os preparativos para receber o evento global trouxeram vários projetos de infraestrutura à cidade – o tipo de investimento que Belém não via há anos.”
Fonte: Bloomberg Línea
A COP30 será uma forma para muitas pessoas poderem observar mais de perto os dados sobre desmatamento, implementação de políticas, e a situação atual da Amazônia e algumas comunidades tradicionais.
Em função do porte do evento, e da quantidade de jornalistas de todo o mundo interagindo neste meio, as diversas manifestações paralelas que acontecem durante o evento, são inevitáveis e destacam diversos fatores e interesses locais e globais, que se interligam e ajudam a gerar pontos de reflexão.
“Milhares de manifestantes climáticos marcharam pela cidade brasileira de Belém neste sábado em uma demonstração barulhenta, diversa e pacífica para exigir mais ações para proteger o destino do planeta e expressar sua raiva contra os governos e as indústrias de combustíveis fósseis. A COP30 já foi palco de inúmeros protestos, incluindo uma tentativa de forçar a entrada de indígenas no local que resultou em confrontos com a segurança na terça-feira, e uma manifestação pacífica separada que bloqueou o local na manhã de sexta-feira. No sábado, designado como um dia de protesto na cúpula de duas semanas da COP, havia uma enorme presença de seguranças ao redor do local, incluindo policiais militares com equipamento anti-motim, embora a rota da marcha não passasse diretamente por lá.”
Fonte: Reuters – 15/11/25
Em função de ter ocorrido uma invasão de manifestantes na Blue Zone em 11/11/25, que é uma área oficial de negociações dentro da conferência, a ONU se manifestou enviando uma carta pedindo mais segurança no evento.
“A ONU (Organização das Nações Unidas) encaminhou ao ministro da Casa Civil, Rui Costa, ao presidente da COP30, embaixador André Corrêa do Lago, e ao governador do Pará, Helder Barbalho, uma carta na qual critica a organização do evento pelo Brasil e exige melhorias.”
Fonte: CNN Brasil
Conforme a programação oficial da COP30, temos a previsão do seguinte calendário:
10 NOV Abertura da COP30 e início das negociações11–12 NOV Cúpula de Líderes Mundiais
13 NOV Dia da Adaptação e Resiliência
14 NOV Dia do Financiamento Climático
15 NOV Dia da Natureza e Biodiversidade / Marcha pelo Clima
16 NOV Dia dos Povos e Comunidades Tradicionais
17 NOV Dia da Juventude e Educação Climática
18 NOV Dia das Cidades Sustentáveis
19–21 NOV Encerramento e balanço das negociações
Fonte: wwf-brasil
A COP30 no Brasil será o primeiro teste para operacionalizar e colocar em prática esses fundos, que são arrecadados e devem ser destinados a programas de preservação.
Porém, em função do histórico de corrupção de integrantes do atual governo brasileiro, que é mundialmente conhecido, a imprensa financeira como por exemplo, Bloomberg, e Financial Times, já sinalizam que haverá um grande debate sobre como os recursos chegarão efetivamente à Amazônia e a outros biomas, evitando a corrupção e garantindo as aplicações necessárias.
Esta conferência apresenta alguns pontos polêmicos, além das manifestações e invasões, há o uso de energia não renovável abastecendo o evento, por meio de 160 geradores a diesel, que geram gases de efeito estufa, fumaça e aquecimento global.
“A poucos metros de distância de onde acontece a COP30, em Belém, caminhões circulam o tempo todo transportando óleo diesel. O objetivo: Abastecer os geradores do evento, que fornecem a energia elétrica necessária para, entre outras coisas, manter o ar-condicionado que resfria o local. O diesel libera gases de efeito estufa, que estão ajudando a aumentar a temperatura do planeta. Por isso, o uso desse combustível fóssil chama atenção durante um evento sobre clima, especialmente após o discurso de abertura do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (PT). “A Terra não comporta mais o modelo de desenvolvimento baseado no uso intensivo de combustíveis fósseis”, disse Lula na ocasião.”
Fonte: BBC
Analisando vários aspectos desta conferência, precisamos observar também os pontos positivos e negativos, para melhorar a formação de opinião sobre o tema.
Pontos positivos e oportunidades
Liderança global do Brasil: Uma oportunidade única para o Brasil reassumir uma posição de liderança na diplomacia climática global, mostrando ao mundo uma transição do discurso à ação.
Economia da floresta em pé: A COP pode ser uma vitrine para negócios sustentáveis da bioeconomia, atraindo investimentos para cadeias de valor que mantêm a floresta preservada.
União entre bioeconomia e ciência: Aproximar a ciência produzida por instituições nacionais (como INPE) às políticas públicas e aos negócios, fortalecendo a credibilidade do país.
Pressão interna construtiva: O evento gera uma pressão positiva para que o governo federal e os governos estaduais da Amazônia avancem em agendas de sustentabilidade e combate ao crime ambiental.
Pontos negativos e riscos
Risco de “Greenwashing”: A imprensa é cética e alerta para o risco de o governo brasileiro usar a COP como uma cortina de fumaça para maquiar problemas reais e persistentes, como o desmatamento ilegal, o garimpo e a grilagem de terras.
Desafios Logísticos e de Infraestrutura: Belém não possui a mesma infraestrutura hoteleira e de transporte do Rio de Janeiro ou de São Paulo. Há um risco real de problemas logísticos que possam prejudicar a experiência dos delegados e a cobertura da mídia.
Instabilidade Política: A imprensa internacional (como The Economist, Washington Post) frequentemente menciona a polarização política no Brasil como um risco. Qualquer crise política doméstica em 2025 poderia desviar a atenção e os recursos necessários para uma COP bem-sucedida.
Conflitos de Interesse: O desafio de conciliar o agronegócio (parte do qual avança sobre a floresta) com a agenda de proteção ambiental será um ponto de tensão muito coberto pela mídia.
Expectativas de resultados
As expectativas para a COP30 são altas, mas realistas:
Acordo sobre finanças para florestas tropicais: Espera-se a formalização de mecanismos financeiros inovadores, como pagamentos por resultados de REDD+, ligados às novas metas de financiamento da COP29.
Uma Contribuição Nacional Determinada (NDC), Brasileira exemplar: A expectativa é que o Brasil apresente uma NDC extremamente ousada, com metas setoriais claras e um plano de implementação detalhado, servindo de exemplo para outras economias emergentes.
Fortalecimento do marco de perdas e danos: A operacionalização do fundo de perdas e danos, acordado na COP27, deve avançar, com esperança de que a COP30 destine recursos significativos, especialmente para países vulneráveis e biomas críticos como a Amazônia.
Declaração de Belém: Um documento político de alto nível, firmado pelos países da Pan-Amazônia (como a OTCA – Organização do Tratado de Cooperação Amazônica), estabelecendo compromissos comuns para a proteção do bioma.
“O governo federal lançou em 17/11, durante a COP30, em Belém (PA), o Arpa Comunidades, nova fase do programa Arpa (Áreas Protegidas da Amazônia). A iniciativa terá 15 anos de duração e pretende beneficiar 130 mil pessoas que vivem em 60 Unidades de Conservação de uso sustentável na Amazônia. O programa propõe mecanismos de financiamento que impulsionam a produção das comunidades extrativistas. A aposta central é integrar conservação e renda. As atividades produtivas apoiadas pelo programa podem gerar entre US$ 130 e 170 milhões por ano e reduzir a pobreza nas áreas atendidas.”
Fonte: UOL
“O governo federal anunciou a criação de uma empresa para gerir os dados de reciclagem no Brasil, certificá-los e padronizá-los para fiscalização do MMA (Ministério do Meio Ambiente), evitando “greenwashing” no campo da reciclagem, ou seja, falsas alegações sobre quanto material foi reciclado.”
Fonte: Folha de S. Paulo – 18/11/25
Na quinta-feira 20/11, segundo a CNN Brasil e outros diversos veículos de imprensa, houve um incêndio no espaço da Blue Zone da conferência, promovendo um grande susto e agitação no local, que precisou ser avacuado para contenção das chamas, conforme ordem do chefe do Corpo de Bombeiros do Pará. Ainda não se sabe o que pode ter iniciado o incêndio.
“O espaço da Blue Zone atingido por um incêndio nesta quinta-feira (20) deixa de ser responsabilidade da ONU e passa a ser responsabilidade do governo brasileiro, segundo nota enviada pela Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCC, na sigla em inglês).”
Fonte: CNN Brasil
A COP30 no Brasil será muito mais do que uma conferência climática, será um grande teste para avaliar a credibilidade ambiental do país no cenário global. O sucesso não será medido apenas pelos acordos assinados durante as duas semanas do evento, mas pela capacidade do Brasil de demonstrar, na prática e de forma sustentável, que a economia de baixo carbono e a proteção da Amazônia são prioridades nacionais que devem realmente serem consideradas.
A imprensa internacional estará atenta a cada detalhe, desde os discursos na plenária principal até os dados de desmatamento divulgados nos meses que antecedem e sucedem a conferência, e agora nos resta torcer para que sejam colhidos os melhores resultados e que os acordos e a maior parte dos investimentos sejam realmente aplicados onde devem.
Fontes:
Bloomberg Línea / Reuters / CNN Brasil / WWF-BRASIL / BBC / UOL / Folha de S.Paulo
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